Letra Miúda | Agosto: o mês em que trabalhamos as férias dos outros
Por Isabel Neto, fundadora e CEO da Levartravel Coluna semanal Letra Miúda · crónica 10
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O país fecha em agosto. É exatamente por isso que nós não podemos fechar.
Na segunda passada prometi-te o mês em que tudo acontece ao mesmo tempo. É este. Enquanto lês isto, Portugal está na praia e uma agência de viagens está no mês mais intenso do seu ano. Chamo-lhe a época alta invisível: ninguém a vê, porque ela existe para que as férias dos outros pareçam simples.
As seis da manhã
Agosto começa de madrugada. Os voos de grupo saem cedo, e quando um grupo parte às seis, o líder está no aeroporto às quatro. Eu já não vou a todas as partidas, mas o telemóvel vai: entre as cinco e as sete da manhã chegam as mensagens mais curtas e mais valiosas do meu dia. Grupo completo. Documentos verificados. Grupo embarcado, tudo bem. Três frases que significam que quarenta coisas correram bem sem que ninguém desse por elas: as malas dentro do peso, os passaportes válidos, a pessoa que se atrasou encontrada, o balcão certo. Às vezes chega uma fotografia: o grupo na porta de embarque, ainda ensonado, já contente. Guardo-as todas.
Mas agosto tem outra madrugada, a que chega de fora. A mensagem das três da manhã vinda da Amazónia, porque é a hora a que a líder chega finalmente ao quarto e quer falar sobre o dia. A dúvida das cinco, vinda da Tailândia, porque lá o dia já vai a meio e há uma resposta que não pode esperar pelo nosso pequeno-almoço. Neste mês tivemos três grupos em viagem em simultâneo, na Amazónia, na Tailândia, e na Guatemala e Belize, espalhados por fusos diferentes, e a palavra manhã deixou de ter um significado único cá em casa: quando em Gaia o dia começa, algures um grupo nosso está a jantar, e outro está a acordar para um nascer do sol que desenhámos há oito meses. E os grupos são só metade do mês: todos os dias entram pedidos de viagens à medida, China, Japão, Gran Canaria, República Dominicana, Egito, cada um com a sua conta de fusos e de prazos.
E há uma coisa que quem está em viagem nem sempre imagina: do lado de cá estão pessoas. As respostas que recebes são escritas por humanos, para já, que o futuro há de trazer outras ferramentas, e é por isso que às vezes demoram dez minutos em vez de dez segundos. O habitual no setor é um horário de atendimento e uma linha de emergência genérica. Nós escolhemos outra coisa, e é uma escolha, não um acaso: estar disponíveis, com nome. Quem viaja com a Levartravel sabe quem está a atender o telefone às quatro da manhã.
O meio do dia
Entre partidas e chegadas, a operação não pára. Agosto é também o mês em que setembro e outubro se fecham: rooming lists a enviar para os hotéis, alotamentos aéreos a confirmar dentro dos prazos, operadores locais a reconfirmar transferes e horários. O vocabulário é pouco romântico: alotamento, rooming list, briefing, standby, dossier. Mas é ele que faz com que, daqui a um mês, alguém desça de um avião e encontre um motorista com o nome certo no papel.
Nada disto se faz sozinho. Do outro lado destes emails estão os parceiros: os DMCs, os hotéis que seguram quartos em época cheia, os motoristas que confirmam à primeira. Agosto é o mês em que se vê quem escolhemos bem: um parceiro sério responde depressa mesmo com a casa cheia. A grelha com que os escolhemos, já te falei dela na crónica das certificações, trabalha o ano inteiro para este mês.
E depois há o imprevisto do dia, porque há sempre! Um voo que muda de horário e arrasta três serviços atrás dele. Um hotel que confirma uma coisa diferente da contratada. Uma companhia aérea que troca de terminal sem avisar ninguém a tempo. Nenhum é dramático às três da tarde; qualquer um seria se ninguém o apanhasse a tempo. O ofício de agosto é quase todo isto: apanhar as coisas a tempo.
As onze da noite
À noite abre-se a janela dos fusos. Quando em Lisboa são onze da noite, na Tailândia já é manhã do dia seguinte; os grupos que estão do outro lado do mundo começam o dia deles quando o nosso devia acabar. A regra do telefone desta casa é simples e leva-se a sério: àquela hora, só liga quem precisa. Mas quem precisa liga sempre, e é para isso que lá estamos. Já te contei, na crónica sobre o conflito ao terceiro dia, como pode ser um desses telefonemas. A maioria não é dramática: uma dúvida, uma confirmação, uma decisão para amanhã. Desliga-se, aponta-se, dorme-se. O dossier fica mais completo, e o grupo do outro lado do mundo nem soube que houve telefonema.
E há as noites em que o telefone não toca, que são a maioria: um líder resolveu sozinho aquilo para que foi treinado, o operador local fez o que o contrato dizia, o plano previu o que tinha de prever. Ninguém aplaude um telefone que não toca, e no entanto é para isso que trabalhamos os outros onze meses.
Malas feitas e desfeitas
E as nossas férias? Existem, e organizam-se pelo calendário das viagens: marcam-se para quando a frequência das viagens de grupo baixa, e quando há grupos em viagem o backoffice fica sempre com alguém de serviço. Setembro e Janeiro são meses bons para quem trabalha em viagens descansar: os destinos esvaziam, os preços respiram, e nós sabemos melhor do que ninguém quando é que cada lugar está no seu melhor. As minhas malas fazem-se quando as tuas já estão desfeitas.
Não quero que este texto se leia como queixa. Não é. Trabalhar as férias dos outros é um privilégio que eu escolhi para mim, e escrevo a palavra com todas as letras. As pessoas entregam-nos duas ou três semanas do ano delas, às vezes as únicas em que param a sério. Tratá-lo como um peso seria não ter percebido o ofício. A época alta invisível não nos cai em cima: passámos o ano inteiro a prepará-la para que ela aconteça sem estrondo.
Os holofotes desligados
Nem toda a gente vê este trabalho, e às vezes isso chega-nos dito por quem viajou, de uma forma fria: não vimos nada a acontecer. É verdade. Mas também não têm de ver. Aconteceu enquanto dormiam, e é essa a natureza da coisa: quando está bem feito, não se vê. O nosso ofício parece-se com o do engenheiro de um teatro. As estrelas do espetáculo são quem está em palco, são as aplaudidas, e ninguém repara em quem fez o espetáculo acontecer.
E mesmo quando, aos olhos de quem viaja, algo parece estar a correr menos bem, e a "estrela" parece atrapalhada, atrás das cortinas está uma equipa a mil à hora, com os holofotes desligados. É assim que trabalhamos, e é assim que queremos continuar.
Repara numa coisa: nunca escrevo aqui o trabalho que eu fiz. Na Levartravel é sempre o trabalho que fazemos, porque somos uma equipa: uns em palco, outros atrás das cortinas. E enquanto gestora desta casa há uma coisa que posso garantir: nenhum destes papéis é mais importante do que o outro, e o elogio a uma pessoa nunca pode servir para diminuir a equipa que a sustenta. Pensa no teu próprio trabalho e vais ver isto em todo o lado. Um bom médico, por exemplo, não faz sozinho um trabalho excecional: à volta dele há enfermeiros, auxiliares, administrativos e uma instituição inteira a segurar cada gesto. A competência de um brilha porque uma equipa a torna possível.
Aprendi isto noutra vida, enquanto cientista, e foi a lição que mais me valeu: não há projetos que se façam sozinhos, e quem acha que consegue estar atento a tudo, há um dia em que cai. No meu primeiro seminário de grupo apresentei o meu trabalho e descrevi, tudo em inglês, exatamente o que eu tinha feito. O meu orientador corrigiu-me ali mesmo, em frente de toda a equipa: "Isabel, aqui não existe um I, existe um We." Nunca mais me esqueci. Tinha razão, e devo-lhe essa frase muito mais do que qualquer descoberta científica. Por isso nesta casa não existe quem sabe mais e quem sabe menos: existe partilha de informação e uma equipa multidisciplinar e multicultural. O líder que vês é a face de uma equipa que não vês, e às duas coisas juntas que chamamos Levartravel.
O que agosto ensina
Agosto ensina a hierarquia do que importa melhor do que qualquer manual de gestão. Tudo o que pode esperar, espera: a contabilidade, as reuniões, a estratégia, esta coluna, que em agosto se escreve mais cedo e mais depressa. Quem está em viagem vem primeiro, sempre. É uma clareza que limpa a cabeça.
E ensina outra coisa, mais miúda: o que se vê de uma viagem em agosto é um grupo a rir num mercado; o que se comprou inclui a madrugada do embarque, o alotamento no prazo e o telefonema das onze. É essa a letra miúda deste mês: o trabalho que existe para não ser visto, feito por uma equipa que decidiu escrevê-lo em voz alta uma vez por semana.
Escrevo para ti que viajas connosco ou vais viajar: para que saibas o que está debaixo das tuas férias. Escrevo para ti que trabalhas no setor: agosto também é o teu mês invisível. Escrevo para ti que escreves sobre viagens: a época alta invisível dá mais histórias do que os destinos. E escrevo para ti que decides viagens corporate: a equipa que responde em agosto é a mesma que vai responder quando a tua empresa precisar dela num imprevisto.
Na próxima segunda leio contigo a letra miúda de uma pergunta que quase toda a gente faz baixinho: numa viagem de grupo, quem dorme com quem, e quem decide?
Diz-me tu: o que gostavas de saber sobre os bastidores de agosto numa agência? Responde-me no LinkedIn, no Facebook ou para geral@levartravel.pt.
Guarda este texto para a tua próxima viagem de grupo. E se conheces alguém que trabalha enquanto os outros descansam, manda-lho. Pode ser a coisa mais útil que partilhas esta semana.
Até já, Levartravel
NOTA: as cenas descritas são o padrão de um agosto típico da operação da Levartravel; episódios específicos foram generalizados para proteger viajantes e parceiros. Publicado a 31 de agosto de 2026.