Letra Miúda | Ninguém nos obrigava. Fomos pedir auditorias na mesma
Por Isabel Neto, fundadora e CEO da Levartravel Coluna semanal Letra Miúda · crónica 6
Em 2020, com o mundo fechado pela pandemia e os aviões no chão, a Levartravel tomou duas decisões no mesmo ano: nascer e pedir para ser auditada.
Quando contei que ia meter uma agência acabada de nascer num processo de certificação internacional de sustentabilidade, ouvi objeções razoáveis. Era cedo. Era caro. E ninguém o pedia: nenhum cliente, nenhum concurso, nenhuma lei.
Avançámos na mesma. Vou contar-te porquê. Mas para isso tenho de te contar primeiro de onde vem, no meu caso, a palavra que anda na boca do setor inteiro.
De onde vem a palavra regenerativa
Entrámos no cartório para constituir uma empresa. Perguntaram-nos: que empresa é esta? Respondemos: uma agência de viagens. Silêncio. Era abril de 2020, a pandemia tinha fechado o mundo, os aviões estavam no chão. Quem funda uma agência no mês em que as viagens deixam de existir não aposta numa moda. Aposta numa convicção: quando o mundo reabrisse, ia ser preciso viajar de outra maneira.
A minha convicção tinha uma origem pouco habitual no setor. Antes da Levartravel, passei mais de dez anos na investigação em medicina regenerativa, entre Portugal, a Alemanha e Inglaterra. O meu trabalho era estudar como se ajuda um tecido a recuperar e a ficar mais forte do que a lesão o deixou. Quando hoje me perguntam se "viagens regenerativas" é uma expressão de marketing, respondo que, no meu caso, a palavra veio do laboratório antes de vir dos catálogos. Regenerar sempre foi o meu ofício. Só mudou a escala: dos tecidos para os territórios.
É por isso que desenho sempre a mesma escada de três degraus.
O turismo convencional extrai valor do destino e beneficia sobretudo quem opera, não quem recebe.
O turismo sustentável minimiza impactos, tenta deixar o destino como o encontrou: é o degrau onde vive a maior parte da comunicação verde do setor, e já não chega.
O turismo regenerativo deixa o destino melhor do que o encontrou. Não se contenta em não prejudicar; propõe-se melhorar. A ambição da casa é subir a escada toda, viagem a viagem.
Mas uma ambição escrita num site é só letra grande. Faltava a parte que a prova.
O que é, afinal, o selo
O Biosphere é uma certificação de turismo responsável atribuída pelo Responsible Tourism Institute, uma organização criada em 1997, sediada em Espanha, com protocolo de colaboração com a UNESCO e membro fundador do Global Sustainable Tourism Council. Não é um carimbo de marketing. É um processo. Tem cento e dezasseis critérios em cinco eixos: governança, social, económico, ambiental e cultural. Exige evidências, tem auditoria externa independente e renovação anual. Se a casa deixar de cumprir, perde o selo. É esta última frase que o separa de quase tudo o que se exibe por aí: um selo não é para pendurar na parede, é para trabalhar.
No nosso caso, o processo começou em 2020, com o mundo parado lá fora. Foi um ano e meio de trabalho, de formação e de consultoria, uma agência recém-nascida a aprender a régua ao mesmo tempo que aprendia o ofício. A certificação chegou em 2022 e desde então é auditada e renovada todos os anos.
As três razões
A primeira foi de ordem ética. Se a coisa que digo da Levartravel é que fazemos turismo de outra forma, então a coisa que digo tem de estar auditada por alguém que não sou eu. Não basta dizer. É preciso provar, e é preciso aceitar a possibilidade de a auditoria dizer que ainda não estou no nível em que penso estar.
A segunda foi de ordem operacional. Os cento e dezasseis critérios funcionaram para nós como manual de operação. Cada um obriga a uma coisa concreta: medir o consumo de água em vez de confiar na impressão, exigir contratos justos, formalizar a relação com as comunidades visitadas. O que era confiança passou a ser confiança documentada, e não saiu ferida: saiu auditável. Quando queres melhorar uma agência, não basta a tua vontade. Precisas de um documento externo que diga o que falta. O Biosphere é esse documento.
A terceira foi de ordem comercial, mas indireta. Eu não esperava que o selo trouxesse clientes. Esperava que ele nos protegesse no dia em que a indústria fosse obrigada a provar o que diz. Em 2020, esse dia era uma hipótese. Hoje tem data marcada: a partir de 27 de setembro de 2026, com a aplicação da Diretiva (UE) 2024/825, as afirmações ambientais genéricas sem prova reconhecida e os rótulos de sustentabilidade que não assentem num esquema de certificação passam a ser práticas proibidas na comunicação comercial. Daqui a semanas, grande parte da letra grande verde do setor deixa de ser legal. Quem quis estar do lado certo do verbo há seis anos já lá está.
Quatro anos de selo depois, o balanço honesto
A primeira coisa que te posso dizer é que o selo não me trouxe clientes diretos. Que eu consiga rastrear, ninguém reservou uma viagem de grupo connosco por causa do certificado. Se procuras aqui uma história de retorno imediato, não a tenho.
A segunda é que o processo mudou estruturalmente a maneira como falamos com operadores locais. Temos uma grelha agora, e tínhamos só uma intuição. É com essa régua que hoje operamos as cinco práticas de cada viagem de grupo, do apoio à economia local à gestão responsável dos recursos, e o Projeto levarT, a prática de que mais me orgulho: uma percentagem dos lucros entregue a organizações sem fins lucrativos nos destinos, como as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras em São Tomé e Príncipe ou a Rosie May Foundation. Sobre cada uma terás crónicas inteiras mais à frente.
A terceira é que o selo me obriga a melhorar todos os anos. Se eu deixar de cumprir, perco-o. Um compromisso com data de verificação marcada é de outra espécie que uma promessa.
E a quarta está na fotografia desta crónica. Setembro de 2024, Universidade de Aveiro, um ecrã onde se lê Futuro: Turismo Regenerativo, e eu de pé a falar para quem estuda e ensina turismo, a convite da Biosphere Portugal. Um selo a trabalhar abre portas que uma agência pequena não abriria sozinha, e obriga o método a circular. Quem hoje estuda turismo naquelas salas é quem vai desenhar as viagens de grupo dentro de três anos. Se dessa conversa ficar a ideia de que "sustentável" é uma afirmação que se prova, e não um adjetivo que se cola, o selo pagou mais uma parte de si.
Escrevo para ti que vais viajar e ouves "sustentável" em catálogos: faz as duas perguntas que desmontam noventa por cento do marketing verde. Quem verifica? E o que fica no destino? Se a resposta demorar, já tens a tua resposta.
Escrevo para ti que trabalhas no setor e pensas candidatar-te à Biosphere ou a outra certificação séria: este texto é meio mapa, meio aviso. Não é fácil. Vale a pena. E depois de setembro, mais do que valer a pena, é o lado certo da lei.
Escrevo para ti que cobres turismo e procuras casos concretos sobre certificações de responsabilidade: esta agência abre os números na medida em que a confidencialidade permite. Pergunta.
E escrevo para ti que decides corporate: a diferença entre "dizemos que somos" e "está auditado" vai aparecer na pegada da tua equipa e na tua due diligence.
Na próxima segunda conto-te qual é a janela em que reservar uma viagem compensa mesmo, e porquê. Há uma altura certa para reservar, e não é a que se pensa.
Diz-me tu: se estivesses naquela sala de Aveiro, que pergunta farias a uma agência que se diz sustentável? Responde-me no LinkedIn ou no Facebook, ou escreve-me para geral@levartravel.pt. Leio tudo e respondo a todas.
Guarda este texto para a próxima vez que vires a palavra "sustentável" em letra grande. E se conheces alguém que trabalha ou estuda turismo, manda-lho. Pode ser o empurrão que faltava.
Até já,
Levartravel
NOTA: os factos sobre o Responsible Tourism Institute e a certificação Biosphere foram confirmados nas fontes públicas do instituto à data de publicação. A diretiva referida é a Diretiva (UE) 2024/825, aplicável a partir de 27 de setembro de 2026. Perguntas sobre o nosso processo: geral@levartravel.pt.
Publicado a 3 de agosto de 2026.