Letra Miúda | Viajar em tempos de guerra
Por Isabel Neto, fundadora e CEO da Levartravel · coluna semanal · crónica 5
Já liguei para pessoas que estavam a fechar a mala para lhes dizer que não iam viajar. Noutra ocasião, liguei para dizer exatamente o contrário: “A viagem mantém-se. Só vamos mudar o caminho.” Fiz estas chamadas três vezes em pouco mais de dois anos.
E foi aí que percebi que o destino é uma coisa. O caminho é outra.
Há uma chamada que qualquer pessoa desta profissão teme. Não é a chamada de um viajante zangado, nem a de um hotel que perdeu uma reserva. É a chamada que chega de madrugada ou ao pequeno-almoço, com a rádio ligada e as notícias ainda a meio, e que te obriga a decidir em horas uma coisa que normalmente demora meses a preparar.
Recebi essa chamada três vezes em pouco mais de dois anos. Uma vez com o grupo a três dias de partir. Outra com doze pessoas literalmente a fazer as malas. E uma terceira com vinte e cinco pessoas a caminho de um país que não tinha nada a ver com a guerra que estava a rebentar.
Nas três, decidi de véspera. Nas três, a decisão foi certa. E, no entanto, não foi a mesma decisão.
Outubro de 2023: Israel e Jordânia, a três dias da partida
A minha primeira chamada chegou numa manhã de outubro de 2023. A 7 de outubro desse ano, o Hamas lançou a partir da Faixa de Gaza um ataque em larga escala contra o sul de Israel, e Israel entrou em guerra no mesmo dia. Eu tinha um grupo com partida marcada para Israel e Jordânia dali a três dias.
Três dias. Vale a pena que percebas o que isso significa em trabalho já feito. As malas estavam fechadas no corredor de cada casa. Os vistos estavam tratados. Os hotéis estavam confirmados e pagos na parte que se paga adiantada. Os guias locais tinham a semana bloqueada para nós. O roteiro estava impresso. Havia pessoas naquele grupo que tinham poupado durante um ano para aquela viagem e outras que a tinham marcado para assinalar uma data que só acontece uma vez.
Cancelámos tudo. Em cima da hora, com o coração apertado e sem uma única dúvida.
Escrevo isto com calma hoje, mas naquele dia não houve calma nenhuma. Houve uma folha de papel, uma lista de nomes e um telefone. Nas primeiras quarenta e oito horas falei com cada viajante, um a um. Não mandei um email coletivo. Fiz telefonemas, e alguns foram longos, e num deles ouvi chorar do outro lado.
Aprendi ali uma coisa que nunca mais desaprendi: as pessoas não precisam só de saber o que acontece ao dinheiro delas. Precisam de ouvir uma voz que já decidiu por elas o que era certo. Um email diz o que aconteceu. Um telefonema diz que alguém está a tomar conta do assunto.
Quando o destino é a própria crise, não há programa que se salve. Não há reencaminhamento inteligente, não há dia alternativo, não há hotel de recurso. Cancela-se, e o desconforto de cancelar é sempre menor do que a alternativa.
O Irão: doze pessoas com as malas em cima da cama
O Irão é, na minha opinião de quem opera há anos, um dos países mais extraordinários onde já levámos viajantes. É também um país que exige uma leitura permanente do contexto. Desde setembro de 2022, quando a morte de Mahsa Amini sob custódia policial desencadeou uma vaga de protestos que se prolongou por 2023, o país passou a estar debaixo de uma atenção internacional constante, e a região à sua volta entrou num ciclo de tensão que ainda hoje não fechou.
A nossa chamada apanhou-nos com doze pessoas a fazer as malas. Não é uma figura de estilo. Estavam a dobrar roupa em cima da cama, com o telemóvel ao lado, quando ligámos.
A tensão na região subiu de dias para horas. As indicações oficiais mudaram de tom, o espaço aéreo passou a ser um assunto de hora a hora e a rede local de parceiros, que é sempre quem sabe primeiro, começou a responder com frases mais curtas. Quando um parceiro local que costuma escrever parágrafos passa a escrever três palavras, já tens a resposta.
Voltámos a cancelar. Doze telefonemas. Doze conversas em que a palavra que mais repeti foi sempre a mesma: voltamos lá, mas não agora, e não convosco em risco.
Houve quem discordasse, e discordou com razões que compreendi. Alguém me disse que conhecia pessoas que tinham ido na semana anterior e tinha corrido bem. É verdade, e não é argumento. Uma agência não decide pelo que correu bem a quem partiu antes. Decide por uma pergunta só: se fecharem o espaço aéreo amanhã, consigo tirar de lá aquelas doze pessoas? Naquela semana, a resposta honesta era não sei. E não sei, nesta profissão, é não.
2026: Sri Lanka, onde o problema era o caminho
E depois há o terceiro caso, que é o que mais ensina, porque é aquele em que a decisão foi exatamente ao contrário.
A 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques militares contra alvos em território iraniano e o Irão respondeu com ataques de retaliação, incluindo contra Estados do Golfo. Nesse mesmo dia houve encerramentos de espaço aéreo na região e companhias como a Qatar Airways suspenderam operações. O impacto na aviação civil foi imediato e global.
Eu tinha vinte e quatro viajantes e um líder de viagem a caminho do Sri Lanka.
Ora, o Sri Lanka fica a mais de quatro mil quilómetros do Golfo e não tem parte nenhuma naquele conflito. Fui verificar o que se verifica sempre, na fonte que interessa, que é o terreno e não o alarme. Os hotéis estavam abertos. Os nossos parceiros estavam tranquilos. As ruas de Colombo estavam normais, as plantações de chá continuavam a ser colhidas, os templos continuavam a receber quem os visita.
O problema não era o destino. Era o caminho.
Isto é a parte que quase ninguém explica a quem compra uma viagem. Cerca de um terço de todo o tráfego aéreo entre a Europa e a Ásia passa pelos hubs do Golfo. Doha, Dubai, Abu Dabi. Quando esses céus fecham ou passam a ser desaconselhados, não é só quem vai para o Golfo que fica em terra. Fica também quem vai para Banguecoque, para Bali, para Colombo. A imprensa especializada contabilizava, em março de 2026, mais de cinquenta mil voos cancelados em consequência da crise.
Fiz então a mesma pergunta que tinha feito no Irão. Se fechar tudo amanhã, consigo trazer estas vinte e cinco pessoas de volta? Desta vez havia rotas alternativas a sul e a norte, havia lugares para comprar e havia parceiros em terra a confirmar que sim. A resposta foi sim, e foi a resposta que mudou tudo.
Aqui, a decisão foi manter a viagem, e mantê-la exigiu mais trabalho do que teria exigido cancelá-la.
Reunímos com as pessoas. Refizemos os voos. Trocámos a ligação, saímos do corredor do Golfo, protegemos os lugares antes de o sistema de reservas bloquear, e reconstruímos as ligações internas para que o roteiro em terra ficasse igual ao que tinha sido vendido. Cada bilhete voltou a ser emitido. Cada transfer voltou a ser reconfirmado com a hora nova. O grupo partiu, viu as plantações de chá e os templos, e voltou sem que a guerra lhes tivesse tocado em nada a não ser no número do voo.
A crise, entretanto, não fechou. Houve um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão anunciado a 8 de abril de 2026 e prorrogado por acordo assinado a 17 de junho, mas com violações recorrentes. A 14 de julho de 2026, a Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação voltou a emitir um boletim de zona de conflito que aconselha as companhias a não operar no espaço aéreo do Barém, do Kuwait, do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos, com validade até 29 de julho. É por isto que, nesta casa, a leitura da situação se faz antes de cada partida e não uma vez por época.
O critério que decide, em cinco palavras
Três crises, três decisões. E um critério só, que é a Letra Miúda de tudo isto.
O destino é uma coisa, o caminho é outra. Quando o destino é a crise, cancela-se, sempre, doa o que doer. Quando o destino está estável e o problema é a rota, trabalha-se a rota.
Parece simples escrito assim. Na prática, o que separa uma decisão de outra são quatro perguntas que fazemos por esta ordem, e nenhuma se salta.
- O destino está em conflito, ou está apenas perto de um? Perto não é dentro. O mapa de um telejornal e o mapa de um plano de voo não são o mesmo mapa.
- O que dizem as fontes oficiais, hoje? Os avisos aos viajantes do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, os boletins de zona de conflito da Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação e os avisos aeronáuticos dos países envolvidos. Ontem não conta. Verifica-se com data.
- O que diz quem lá está? O nosso parceiro local, a nossa líder de viagem, o motorista que fez o percurso esta manhã. Esta é a fonte que a comunicação social não tem.
- Se fechar tudo amanhã, consigo trazer o grupo de volta? Esta é a pergunta que decide de verdade. Uma viagem só se mantém se a saída estiver garantida, não só a entrada.
Se a resposta à primeira é dentro, cancela-se e as outras três não chegam a fazer-se. Se a resposta à quarta é não, cancela-se na mesma. Entre uma coisa e outra, há um trabalho de rota que ninguém vê e que é, honestamente, a parte de que mais gosto neste ofício.
O que nunca se faz
Um dos maiores erros do setor é decidir pelo drama das notícias em vez de decidir pelos factos no terreno. Cancelar o Sri Lanka em fevereiro de 2026 teria sido a decisão mais fácil de justificar publicamente e a mais errada de todas. Vinte e cinco pessoas teriam perdido uma viagem inteira por causa de uma guerra que não lhes tocava, e os nossos parceiros no Sri Lanka teriam perdido a receita de uma semana num ano já difícil. Uma agência que se diz sustentável não pode abandonar um destino estável só porque a manchete é grande.
Entre o alarme e a negação há um espaço estreito onde mora o ofício. É nesse espaço que trabalhamos.
E quem paga o quê
Sei que é a pergunta que estás a fazer, e é justa. A resposta honesta é que não há uma resposta única. Depende do que exatamente foi afetado, de quando foi afetado e do que já estava contratado e pago a fornecedores no momento em que a decisão foi tomada. Cancelar uma viagem para um destino em guerra, adiar uma partida e refazer uma rota mantendo o programa intacto são três situações diferentes, e a lei das viagens organizadas trata-as de maneira diferente. Tudo isso está previsto nos nossos Termos e Condições, na parte dedicada às circunstâncias inevitáveis e excecionais, que é o nome que a lei portuguesa dá àquilo a que toda a gente chama força maior.
É matéria demasiado séria para caber no fim de uma crónica sobre outra coisa. Merece um texto só dela, com os cenários abertos um a um e sem Letra Miúda, e fica prometida.
Se fosses um dos doze com a mala aberta em cima da cama, o que precisavas de ouvir no telefonema da agência? Escreve-me nos comentários, porque a resposta a essa pergunta é literalmente aquilo que eu treino com as nossas líderes de viagem.
Espero nunca voltar a fazer um telefonema destes. Mas, se um dia tiver de o fazer outra vez, espero que quem estiver do outro lado saiba que a decisão já foi tomada com uma única prioridade: trazê-lo de volta em segurança.
Guarda este texto para a tua próxima viagem. E se conheces alguém que precisa de o ler, manda-lho. Pode ser a coisa mais útil que partilhas esta semana.
Até já,
Levartravel
Nota. Os casos descritos são reais. As circunstâncias operacionais de cada grupo estão contadas de memória e podem ser precisadas. As condições de cancelamento e reembolso em situações de circunstâncias inevitáveis e excecionais são as dos Termos e Condições em vigor e das apólices contratadas. Dúvidas: geral@levartravel.pt.
Publicado a 27 de julho de 2026.